sábado, 4 de outubro de 2008

BI THE WAY
Festival de Cinema do Rio

Documentário de Brittany Blockman e Josephine Decker, com música e edição espertas, traça um painel interessante da fluidez das experiências sexuais na atualidade. As diretoras partiram de uma questão que não tem resposta em nossa época: bissexualidade é moda passageira ou uma nova revolução sexual? Os comentários dos entrevistados, é claro, foram diversos e, pra variar, ninguém quis saber de ser rotulado como bi, hetero ou gay. As identidades sexuais, nos tempos modernos, parecem trazer um tremendo desconforto para as pessoas, que disso vivem fugindo como o diabo da cruz.

Reunindo depoimentos interessantes dos quatro cantos dos EUA, e vendo pessoas das mais diferentes classes, credos e faixas etárias tão à vontade (e até orgulhosas) em não se identificar c
om qualquer categoria, as diretoras concluíram que uma grande transformação está em curso, alterando de modo definitivo o modo como as pessoas se expressam sexualmente.

Well, tenho cá minhas dúvidas se tanta fluidez é atributo de alguma revolução sexual. Acho que alguém acertou em cheio quando comentou no documentário que o beijo de Britney e Madonna não começou, nem inventou nenhuma moda, apenas colocou um espelho diante da sociedade, refletindo o que já estava acontecendo entre as pessoas. São tempos líquidos (como dizem os pensadores) e o sexo é reflexo disto.


segunda-feira, 29 de setembro de 2008

QUESTÃO DE ORGULHO

O filme CELIA, A RAINHA foi, acima de tudo, um filme sobre o orgulho cubano. Pouco concentrado em informações sobre a carreira da cantora, colecionou depoimentos apaixonados de fãs, especialmente de cubanos privados por décadas de sua música, banida da ilha pelo regime muy democrático de Fidel. Radicada nos EUA, Celia pôde espalhar sua música feliz pelo mundo. Pelo que pudemos ver nas cenas da cantora no palco e em entrevistas, ela incorporava com muita autenticidade a crença nas boas vibrações da música e assim conseguiu, mesm
o longe das rádios, manter-se perto dos corações cubanos.

E por falar em orgulho, foi o que mais se viu na sessão de sábado à noite no Odeon, lotadíssima para o filme PALAVRA (EN)CANTADA. Coleção de depoimentos muito criativos de cantores, compositores e estudiosos da MPB, o filme arrancou aplausos e expressões emocionadas da platéia, que não quis saber de economia na hora de mostrar sua admiração pela música brasileira. Foi daquelas sessões memoráveis: filme bacana, cinema cheio e platéia reag
indo em sintonia, com direito a torcida organizada para Chico, Lenine, Tom Zé e companhia.



sábado, 27 de setembro de 2008

VIVA A MÚSICA!

O Festival do Rio, neste ano, está recheado de filmes que têm a música como mote central. Os documentários ganham uma mostra à parte, a MIDNIGHT SONGS, registrando os trabalhos de Patti Smith, Joe Strummer, Neil Young, Anita O'Day, Arthur Russell e Philip Glass.

A Premiére Brasil tem ainda os documentários sobre as Cantoras do rádio, Jards Macalé, Wilson Simonal, Arnaldo Batista e Titãs, além do filme de Helena Solberg, "Palavra Encantada", que conta com depoimentos de vários artistas da MPB.

Já a mostra Retratos traz curtas sobre Miltinho, Pixinguinha, Vinícius e Remo Usai.

É bom ficar de olho também em "Favela On Blast", "Contratempo", "Canção de Baal", "Café dos Maestros", "Os roqueiros esquecidos do deserto" e "África Unite".

E hoje ainda tive uma grata surpresa com "O Visitante", de Tom McCarthy. Bonito e denso, sem ser chato, o filme narra a amizade entre um professor entristecido pela solidão e um imigrante ilegal da Síria, fortemente unidos pelo amor a música e fatalmente separados pela paranóia americana. A música é personagem à parte no filme, que tem Fela Kuti na trilha e cenas que dão uma pequena mostra do poder do tambor. Imperdível.

domingo, 21 de setembro de 2008



FESTIVAL DO RIO 2008 - MOSTRA GAY


Filmes de interesse lés do Festival do Rio 2008:

O NOVO MUNDO / "LE NOUVEAU MONDE" , DE ETIENNE DHAENE - FRANÇA (2007) / 90min.
Em Paris, o casal Lucie e Marion decide ter um bebê e têm de enfrentar todos os dilemas que envolvem este novo modelo de família: a decisão de como pôr em prática o desejo, a interferência de amigos e de familiares e as formas de relacionamento com o pai da criança.
Terça 30: Palácio 2, 14 hs e 19 hs / Quinta 2: cine Glóira, 20:30 hs / Sábado 4: Estação Botafogo 3, 23:30 hs.

CORAÇÕES DE MULHER / "WOMAN'S HEART, DE KIFF KOSOOF - ITÁLIA/85min.
Zina, uma italiana descendente de marroquinos vai se casar com um árabe rico em Turin. Entretanto, velhas tradições colocam um empecilho na relação: ela não é mais virgem. Para que o casamento não seja cancelado, Zina parte com sua amiga, a travesti Shakira, para Casablanca em busca de uma cirurgia de restauração.
Terça 30: Estação Botafogo 1, 24 hs / Quinta 2: Palácio 2, 16:10 hs e 20:10 hs / Sábado 4: Estação Barra Point 1, 18:00 hs.

"BI THE WAY", DE BRITTANY BLOCKMAN E JOSEPHINE DECKER- USA (2008) / 88 min.
Intrigadas com o grupo cada vez mais numeroso de pessoas que se declaram bissexuais, pansexuais ou "sem rótulos" na América, Brittany Blockman e Josephine Decker criaram um documentário a partir de entrevistas feitas em diversas partes dos Estados Unidos, para investigar se esta onda chega a configurar uma mudança social ou se não passa de uma moda sem maiores conseqüências na vida de quem a experimenta.
Sábado 27: Estação Botafogo 1, 24 hs / Estação Barra Point 2, 13 hs e 22:30 hs / Quarta 1: Cine Glória, 20:30 hs / Segunda 6: Palácio 2, 14 hs e 18 hs.

ASSIM ME DIZ A BÍBLIA / "FOR THE BIBLE TELLS ME SO", DE DANIEL G. KARSLAKE - USA (2007) / 95min.
O documentário acompanha as vidas de cinco famílias cristãs que possuem filhas lésbicas ou gays. Alternando depoimentos destes familiares com depoimentos de teólogos, o filme investiga o modo como pessoas religiosas lidam com a homossexualidade nos dias atuais.
Terça 30: Palácio 2, 16:30 hs e 21:45 hs / Quinta 2: Estação Botafogo 1, 24 hs / Domingo 5: Cine Glóira, 20:30 hs.

Fora da mostra gay, rola o documentário Patti Smith: Dream of Life, de Steven Sebring.

O Festival vai até 09/10/08. Os ingressos são vendidos o hall do Espaço de Cinema (Voluntários da Pátria, 35, Botafogo) e também pelo site www.ingresso.com

Acompanhe as resenhas dos filmes ao longo do Festival neste blog.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

NOVO FILME DE DEEPA MEHTA

DEEPA MEHTA, diretora de Fire (1996), estréia seu novo filme “Heaven on Earth” no Festival de Toronto. A história aborda a situação de violência doméstica, acompanhando a história da imigrante Chand (Preity Zinta), que muda-se para um subúrbio de Toronto, após casar-se com Rocky Grewal. O casamento revela-se uma violenta rotina de abusos verbais e físicos, cometidos pelo marido violento e por outros membros de sua família. Suspeita de infidelidade, ela é forçada a cumprir um ritual conhecido como o “teste do fogo” para provar sua inocência.

FONTE: http://www.indiewire.com/


domingo, 31 de agosto de 2008


AS ÚLTIMAS DO CIRCUITO NACIONAL – PARTE II


Do Outro Lado, de Faith Akim, é um bonito filme que entrelaça de modo tocante as vidas de pessoas ora unidas, ora separadas por códigos culturais. Nejat e seu pai são imigrantes turcos que têm uma relação perturbada pelo fato de que Nejat foi criado sob a cultura alemã e está mais próximo dos valores ocidentais do que daqueles que seu pai ainda sustenta. A estúpida morte da prostitua Yeter abala de vez as vidas dos dois e leva Nejat de volta à Turquia, em busca de Ayten, a filha de Yeter, com quem esta há muito não falava.

Entretanto, Ayten, ativista estudantil, está a caminho da Alemanha, onde entra ilegalmente para escapar da perseguição da polícia turca. Na Alemanha, ela se envolve Lotte, jovem sonhadora que tem um relacionamento turbulento com a mãe. Ayten e Lotte se apaixonam e quando Ayten é deportada para a Turquia, Lotte vai atrás dela. Na Turquia, outro gesto estúpido provoca o rompimento desta relação. A mãe de Lotte também parte para a Turquia em busca da filha e acaba conhecendo Nejat.

A relação entre as meninas rende uma parte muito interessante do filme, mas é tragicamente interrompida, em mais uma daquelas histórias em que relação entre mulheres não dura muito tempo. A homossexualidade, porém, não é o fator que determina o destino dos personagens. A extrema violência que se abate sobre Ayten e Lotte não está ligada a sua condição homossexual. O filme trata de outras diferenças que provocam desigualdades e distanciam as pessoas, mesmo quando estão lado a lado em uma mesma sala e, principalmente, de sentimentos capazes de aproximá-las, mesmo quando estão em países diferentes. De modo surpeendente, a história explora as possibilidades e as fragilidades das relações entre personagens tão perto e tão longe uns dos outros.

DO OUTRO LADO (Auf der anderen Seite)
Turquia / Alemanha / Itália – 2007 – 122 min.
DIREÇÃO: Faith Akin
ELENCO: Nurgül Yesilçay (Ayten/Gül), Baki Davrak (Nejat Aksu), Tuncel Kurtiz (Ali Aksu), Hanna Schygulla (Susanne Staub), Patrycia Ziolkowska (Charlotte 'Lotte' Staub), Nursel Köse (Yeter/Jessy)
O filme ganhou 17 prêmios, dentre eles o de melhor roteiro em Cannes

domingo, 17 de agosto de 2008

AS ÚLTIMAS DO CIRCUITO NACIONAL – PARTE I

ONDE ANDARÁ DULCE VEIGA?
Brasil (2007)· 135 min.
DIREÇÃO: Guilherme de Almeida Prado
ROTEIRO: Guilherme de Almeida Prado (baseado no livro de Caio Fernando Abreu, “Onde Andará Dulce Veiga?”)
ELENCO: Maitê Proença (Dulce Veiga), Carolina Dieckmann (Márcia), Eriberto Leão (Caio), Nuno Leal Maia (Rafic), Carmo Della Vechia (Raudério), Cacá Rosset (Castilhos)
SINOPSE: A história acompanha o jornalista Caio (Eriberto Leão) que, nos anos 80, tenta descobrir o paradeiro de Dulce Veiga (Maitê Proença), atriz e cantora de sucesso desaparecida desde os anos 60. Ao longo de sua jornada, conhece Márcia (Carolina Dieckmann), a filha de Dulce, e se apaixona por ela.

Não sei não, mas este filme parece um pouco cheio de planos para transgredir, mostrando a Carolina Dieckemann seminua, na pele de uma rrriot girrrrl, revoltadona, lésbica, atirando pedras em quem passa pelo seu caminho. Tem também um beijo gay entre atores gatos. Alguma ousadia no visual, narrativa pouco linear e história baseada na obra do cultuado Caio Fernando de Abreu.

A ficha para mim, entretanto, não caiu. O filme não me provocou nem um pouco, nenhum personagem me comoveu, nenhuma saga me fez remexer na cadeira. Não senti nada e acabei achando tudo muito chato. A Márcia de Carolina não disse a que veio. Pelo menos do modo como foi mostrada no filme, pareceu mais uma gatinha assustada fingindo ser casca-grossa. Caio, embora tenha se lançado em uma jornada em princípio tão interessante, atrás da misteriosa Dulce Veiga, foi muito pouco convincente. Ele não parece estar pessoalmente envolvido naquela busca. Sua expressão facial, a mesma durante todo o filme, nos faz crer que está executando uma de suas tarefas rotineiras.

Bem, dizem por aí que o filme é ousado demais, destinado ao culto de poucos. E como é cheio de mergulhos na imaginação do jornalista, se presta àqueles comentários igualmente herméticos (“uma ode à transposição entre o real e o imaginário...”). Outros o acusam de pôr tudo a perder com um final novelão, com Dulce Veiga discursando um textinho de auto-ajuda e beijinho de encerramento. Carolina Dieckman dando um passa-fora na namorada para entrar na linha ao lado de Caio pode ferir sensibilidades. Ah, sim, pode ser que o encontro dos dois no final seja mais um mergulho na imaginação do jornalista. Ai, ai, essas transposições entre o real e o imaginário...

Mas filmes que dividem platéias são assim mesmo, deixam uma única alternativa: só vendo para escolher o seu lado.