quinta-feira, 25 de dezembro de 2008


POR SUA RELEVÂNCIA, O MELHOR DO ANO

Neste filme de Gus Van Sant, Alex é um menino completamente perdido sobre o que acontece ao seu redor e, principalmente, dentro de si mesmo. Ele se envolve em uma situação que culmina na morte de uma pessoa, mas é tão carente de referências e de valores, que não consegue julgar os próprios atos. Não chega a uma conclusão sobre se estava certo ou errado no lance e nem mesmo consegue reagir ao cerco que a polícia monta ao redor da "comunidade de skatistas" na qual ocorreu o crime. Aliás, "comunidade" não, porque as pessoas que se reúnem no parque Paranoid para andar de skate mal se conhecem, como bem lembrou um dos garotos investigados. Não há família que ampare, escola que desperte, política ou causas capazes de atrair aqueles garotos sem rumo. Eles estão mergulhados em si mesmo e dão de cara com um tremendo vazio.

O filme dividiu opiniões. Muitos disseram que o diretor filmou com distanciamento e frieza irritantes. Outros simplesmente sacramentaram a crítica: "muito chato". O fato é que Van Sant não dá moleza aos espectadores e prefere usar o próprio jeito de filmas para reforçar uma história que já vem contando em filmes como O Elefante e Last Days. No primeiro, investiga um massacre ocorrido em uma escola americana e, no segundo, os últimos dias de vida de um astro de rock. Em ambos, a lentidão e a aparente falta de propósito marcam as cenas, lembrando a sensação que inspirou Kurt Cobain (não por acaso, Last Days é sobre ele) a compor Smells Like Teen Spirit: "é sobre a apatia da minha geração".

Bem longe da isenção, o cineasta filma com uma visão de mundo, oferecendo seu ponto de vista sobre uma juventude que bóia na marola da apatia, radicalmente desvinculada de qualquer coletividade.

domingo, 30 de novembro de 2008

NEM NA FOTO

Polêmicas sobre beijo gay na TV brasileira continuam ganhando corda. Domingo, 23 de Setembro, a Revista da TV do jornal O Globo fez uma matéria sobre os personagens gays de seriados. Nenhuma novidade, não fosse a foto escolhida para a capa da edição: a cena do beijo entre Kevin e Scotty, personagens do seriado "Brothers and Sisters", que passa por aqui na TV a cabo.

Na semana seguinte, as cartas dos leitores não deram moleza ao jornal. O repúdio à foto foi justificado (pelos que tiveram suas cartas publicadas) em função das crianças e dos mais idosos. Todo mundo tratou de dizer que não achava necessário, nem construtivo, mostrar foto ("gigante", segundo um leitor) como aquela. Reclamaram muito que seus filhos ficaram perguntando por que dois homens se beijam. E que pessoas idosas se sentiram agredidas.

Fico feliz em saber que, mesmo revoltados com a maléfica influência da mídia sobre crianças e idosos, os leitores avançaram muito em sua visão, já que todos disseram que não tinham NADA contra homossexuais. Ah, que bom...


sábado, 8 de novembro de 2008


HOPPER E A CIDADE

Embora sejam lidos como sintomas de amargura e solidão, como pinturas tristes sobre pessoas que não se comunicam, os quadros de Edward Hopper emanam uma tranqüilidade rara. Colocam um inusitado tom bucólico bem no meio da cidade. Como a cidade poderia ser, ao menos algumas vezes, só que nunca é. Os espaços de introspecção desparacem dela. Por isso ficam tão bonitos pintados assim.

Quadros: à esquerda, NIGHTHAWKS (1942); à direita, CHOP SUEY (1929)

domingo, 2 de novembro de 2008




O coração, todo mundo sabe,

fica bem no meio do peito.

Mas, comigo, a anatomia ficou louca:

sou todo, todo coração.

V. MAIAKÓVSKI





guaches gauches de vania


sábado, 1 de novembro de 2008

O BRASIL DE MARIA DE MEDEIROS

Gamada na terra verde e amarela, a atriz portuguesa, filha de um músico, promove seu disco “A little more blue”, que reúne músicas de Chico, Caetano, Ivan Lins, Gil e Dolores Duran. O show foi apresentado no Teatro do Sesc Pinheiros, no encerramento do Festival de Cinema de SP e rola em edição pocket em Ipanema, dia 4 de novembro.

No currículo desta interessante atriz estão filmes bacanas como Pulp fiction (1994) e agarrações com atrizes bonitas (só nos filmes, claro) em Henry & June (1990) e Riparo (2007).

No site da gaja dá pra conferir um pouco do show e um tira-gosto do disco: http://www.mariademedeiros.net/.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

PATTI SMITH: DREAM OF LIFE
Festival de Cinema do Rio

Documentário de Steven Sebring, exibido no Festival do Rio, acerta em cheio ao deixar de lado o estilo tradicional que marca boa parte dos documentários musicais, que se limitam a mostrar a progressão de fatos marcantes da carreira dos artistas. Aqui vemos Patti Smith listando, logo nos primeiros minutos do filme, os episódios mais importantes de sua vida, enquanto desfilam na tela paisagens bonitas em P&B.

Foi uma boa tirada, que deixou o filme livre para retratar a força artística da poetisa do punk, sem se amarrar a seqüências históricas e, principalmente, sem os chatíssimos depoimentos de figuras importantes lambendo a estrela. O filme foi também bastante honesto em não abusar da adoração dos fãs e, por conta disso, nada de cenas de shows arrebatadores, com o público entrando em catarse...

Acompanhamos Patti Smith, ao longo dos 10 anos consumidos nas filmagens do documentário, visitando o túmulo dos poetas que tanto influenciaram sua música e recitando incansavelmente Rimbaud, Burroughs e Ginsberg nos palcos, ou em seu quarto, pequeno e sempre desarrumado pelos livros, fotografias e instrumentos espalhados. Podemos vê-la visitando os pais ou inflamando seus discursos contra Bush, ou, ainda, revelando que deseja tocar as telas quando visista museus (e que foi pega de primeira, tentando tocar em um Modigliani).

Melhor do que ser assombrada pela grandiosidade histórica de alguém que fez tanto pelo rock, é saber que esta adorável poetisa começou a escrever por uma necessidade "física" de ver as palavras escritas. Filmaço, lírico, espiritual e generoso o bastante para não fechar definições. Bem à altura de quem retrata.



sábado, 4 de outubro de 2008

BI THE WAY
Festival de Cinema do Rio

Documentário de Brittany Blockman e Josephine Decker, com música e edição espertas, traça um painel interessante da fluidez das experiências sexuais na atualidade. As diretoras partiram de uma questão que não tem resposta em nossa época: bissexualidade é moda passageira ou uma nova revolução sexual? Os comentários dos entrevistados, é claro, foram diversos e, pra variar, ninguém quis saber de ser rotulado como bi, hetero ou gay. As identidades sexuais, nos tempos modernos, parecem trazer um tremendo desconforto para as pessoas, que disso vivem fugindo como o diabo da cruz.

Reunindo depoimentos interessantes dos quatro cantos dos EUA, e vendo pessoas das mais diferentes classes, credos e faixas etárias tão à vontade (e até orgulhosas) em não se identificar c
om qualquer categoria, as diretoras concluíram que uma grande transformação está em curso, alterando de modo definitivo o modo como as pessoas se expressam sexualmente.

Well, tenho cá minhas dúvidas se tanta fluidez é atributo de alguma revolução sexual. Acho que alguém acertou em cheio quando comentou no documentário que o beijo de Britney e Madonna não começou, nem inventou nenhuma moda, apenas colocou um espelho diante da sociedade, refletindo o que já estava acontecendo entre as pessoas. São tempos líquidos (como dizem os pensadores) e o sexo é reflexo disto.